Capítulo I - Alexandre

 

Olhava para as páginas em branco. Perdera a conta dos minutos e não sabia mais há quanto tempo segurava o pequeno livro de capa vermelha e a pena negra. Pegou o bilhete e leu-o novamente: “Escreva suas histórias. São lições de vida que não devem cair no esquecimento”. Para ele era fácil, pois era poeta, mas Apocrypha não gostava de escrever, nunca sabia como começar. Resolveu escrever isso: “Eis aqui a contadora de histórias que não sabe escrever o que fala! Por que as palavras faladas são tão diferentes das escritas?”. Leu as palavras ainda molhadas de tinta. “Vão pensar que sou burra, péssimo começo”. Mas não se importava com o que pensavam de si, por isso era andarilha. “Malditas contradições! Não me preocupa o que dizem sobre o que falo, mas me preocupa o que dizem sobre o que escrevo! E é a mesma coisa!”.  Escreveu seu último pensamento.  Uma luz brilhou em sua mente. “Amo as palavras faladas porque elas somem no vento, as escritas sobrevivem”. Benditas contradições!

Um barulho a tirou de seus pensamentos. Olhou a sua volta, enquanto deixava o livro e a pena de lado e procurava o punho da espada. Sons de passos. Levantou-se e tirou a espada da bainha sem fazer ruído. Detrás de uma árvore apareceu um rapaz.

- Quem está aí? – sua voz ecoou firme entre as árvores.

- Esta pergunta sou eu quem deve fazer, já que estás em minhas terras. Diga quem és! – o rapaz falava com a autoridade que lhe era permitida.

- Sou uma andarilha, estava seguindo a estrada. - O jovem a sua frente pôs a mão no punho da própria espada, que estava presa em seu cinto. Apocrypha segurou mais firme a sua.

- Estás perdida? Afinal a estrada está longe.

- Não, não estou perdida. Sei onde está a estrada. Apenas me desviei de seu caminho para passar a noite em segurança. Perdoe-me por entrar em suas terras, jovem senhor, mas se desejas que eu saia, arrumo minhas coisas e vou embora.

O rapaz a observava atentamente. A mulher vestia calças marrons e calçava botas de couro pretas; a capa verde corria suas costas até o chão e sua barra estava desgastada, indicando que há muito tempo era usada; usava uma blusa branca de algodão e, por cima, uma jaqueta da cor da calça. Passaria por um homem se suas feições delicadas não a denunciassem. Não tinha no rosto a beleza das donzelas das histórias, mas possuía o encanto e o mistério que todas as mulheres têm. Os olhos castanhos demonstravam a grande sabedoria que possuía, apesar de aparentar não mais que vinte anos; os lábios finos tinham a cor do vinho tinto e, embora o rosto estivesse crispado, eles apontavam que sorriam facilmente. Sua pele era morena, mas extremamente clara, e os cabelos tinham a cor da terra e as ondas suaves do mar, apesar de serem revoltosos. Um brilho chamou sua atenção: no peito da mulher, um cristal brilhava sem que nenhum raio de luz o atravessasse. E lembrou-se da história ouvida.

- Qual o seu nome, senhora?

- Não tenho nome senhor, mas me chamam de Apocrypha Sem Origem.

O rapaz aproximou-se e soltou o punho da espada. Percebendo que não havia perigo, Apocrypha abaixou a sua.

Introdução                                                                                           Capítulo I - Página 2