Capítulo II – Hilda e Siegfrid

 

A neve caía mansamente, tirando o colorido da paisagem da floresta de pinheiros, pintando o chão e as árvores de branco aveludado. Uma figura encapuzada caminha solitária, deixando pegadas no caminho, com uma luz brilhando em seu peito: é Apocrypha. O frio tornava sua pele e seus lábios arroxeados e fazia com que seu corpo tremesse numa tentativa de manter-se aquecido. Falava consigo mesma para não perder a consciência.

- Maldito seja meu coração! Só me faz pegar estradas que me levam a guerras e povos sofridos! Agora, me traz a este frio insuportável do sul! – ela pára de repente e aguça o olhar para uma nuvem de fumaça que sobe do alto de uma pequena colina. – Fumaça! Graças! Onde há fumaça, há fogo e calor! – a simples suposição da existência de calor por aquelas terras frias lhe animou o suficiente para subir a colina a passos largos.

Encontrou a fogueira em frente a uma casa de caça e, em volta dela, três homens assavam um javali morto recentemente, pois seu sangue e entranhas ainda tingiam a neve de vermelho. Um dos homens a viu e se levantou:

- Alto, estranho! Que negócios o trazem a Dargas?

- A esplendorosa visão de uma fonte de calor. O senhor teria a caridade de fornecer um lugar junto à fogueira para uma viajante cansada? – conforme falava, Apocrypha levou a mão à corrente e a escondeu sob a roupa.

- Identifique-se e será bem vindo!

- Sou Apocrypha Sem Origem, andarilha.  – ela se aproximou com a mão estendida para cumprimentá-lo.

- Siegfrid Dracosson, primeiro capitão dos exércitos de Dargas. – o homem a cumprimentou com um aperto de mão firme e a surpreendeu com a seriedade de seus olhos cinzentos. – Seja bem-vinda, senhora Apocrypha.

- Salve senhor Siegfrid! Que o senhor conduza teus exércitos para a paz, não à guerra.

- Que esta seja a vontade que Nalin plante no coração de seus filhos. – ao ouvir o nome do senhor da Lua, Apocrypha percebeu que teria de domar seus impulsos, talhados por Hórpia, senhor do Sol, pois aquele povo devia ser mais pacífico. – Aproxime-se do fogo e sirva-se de hidromel, senhora. Fique à vontade.

Siegfrid sentou-se ao lado dos outros dois homens e voltaram à conversa que a chegada de Apocrypha interrompera. Eles falavam baixo e Apocrypha não se sentou muito próximo a eles para não dar a impressão de que queria ouvir a conversa, apesar de ser essa a sua vontade. Observava-os atentamente, olhando para suas armaduras. Eram formadas por um peitoral de aço negro com o emblema de um dragão alado branco; caneleiras de couro trançado estavam amarradas em suas pernas; os elmos negros descansavam no colo de um e no chão, ao lado de seus donos. Apocrypha desistiu de ouvir a conversa, pois eram poucas as palavras que o vento trazia e que ela podia entender, por isso voltou sua atenção à fogueira e ao frio. Sua capa de lã era fina e ela não suportaria o frio por muito tempo. Queria voltar para o sol do Norte.

 

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