- Está doendo, mas consigo andar sozinha. Confie em mim.

Siegfrid concordou com a cabeça e ergueu Hilda em seus braços. Apocrypha pegou a tocha do suporte e seguiu na frente para iluminar o caminho. Tinham pressa, mas nenhum dos dois conseguia andar rápido. Chegaram ao salão onde tinha sido travada a batalha. Apocrypha foi a primeira a sair pelo alçapão e os soldados ficaram assombrados ao vê-la sozinha, mas logo a expressão temerosa sumiu de seus rostos quando Siegfrid apareceu. Eles correram até o capitão para ajudá-lo. Apocrypha sentiu as pernas fraquejarem e um soldado a amparou sorrindo. Ela devolveu o sorriso e foi levada para junto dos outros feridos, assim como Hilda e Siegfrid. Os primeiros raios de sol começaram a incidir nas altas janelas, iluminando o salão. Os soldados traidores já eram levados para as celas e os mortos tinham seus corpos cobertos. Os soldados de Idon oravam junto do corpo de seu senhor. Finalmente a paz chegara para todos. Suja de sangue, mas tranqüilizante. A calmaria e o cansaço trouxeram o sono para Apocrypha, que murmurou um “acabou” antes de adormecer com a cabeça encostada no ombro do soldado que a ajudou.

Pouco depois, a andarilha acordou sentindo um líquido escorrer pelas suas costas, causando ardor em suas feridas. Soltou um gemido de dor e abriu os olhos, encontrando duas jovens que cuidavam de seus machucados.

- Desculpe-nos, senhorita Hortência, não queríamos acordá-la. Estamos terminando seus curativos e logo poderá voltar a descansar.

Apocrypha tornou a fechar os olhos e as lembranças da noite anterior voltaram à sua mente:

- Onde estão a senhora Hilda e Siegfrid?

- Estão sendo tratados em seus aposentos, mas é melhor você descansar primeiro, antes de vê-los, não? – a sacerdotisa falava com doçura na voz, porém com autoridade. Logo que terminou seu trabalho, ela partiu e disse que serviriam a refeição em seguida. Apocrypha queria ver Siegfrid depois de comer, mas rendeu-se à cama macia e voltou a dormir.

Quando acordou, mais de metade do dia já tinha passado. A sacerdotisa lhe falou que Siegfrid já estava acordado e Apocrypha foi encontrá-lo no jardim. Ele tinha uma expressão serena e um sorriso no rosto. Ela sentou-se ao seu lado, mas sem encostar as costas no banco pois sua queimadura trazia desconforto.

- Boa tarde, Siegfrid, como está se sentindo?

- Apesar da dor das feridas, estou bem. Tenho uma paz que há muito não tinha. – ele olhou nos olhos da andarilha e sorriu.

- Percebe-se em seu olhar que suas preocupações partiram, mas ainda falta uma pessoa entre nós.

- Sim, falta Frederic. Provavelmente ele chegou há pouco tempo e deve estar em batalha agora. Amanhã receberemos notícias, independente de serem boas ou ruins.

- Acredito que ele sairá vitorioso e que logo estaremos todos juntos, comemorando.

- Meu coração diz a mesma coisa, portanto será verdade. Dois corações não podem estar enganados.

 

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